RAIA
GALERIA MUNICIPAL DE MOURÃO
GALERIA MUNICIPAL DE MOURÃO
Alentejo, Alentejo,
Vastidão de Portugal
Futuro, continental!
Terra lavrada, que vejo
A ser mar mas sem ter sal.
(…)
“Canção para o Alentejo”, Miguel Torga (1999). “Diário: Vols: I a IV”
O termo “raia” ou “raya”, em português e espanhol, significa a fronteira ou a linha divisória, que designa a região geográfica e cultural entre os dois países. Esta é marcada pela raia húmida (rios, como o Guadiana) e a raia seca (terrestre) com marcos e divisões, que foi sendo estabelecida desde o Condado Portucalense.
O artista referiu, na exposição “Mare Clausum” no Museu da Luz (2025), o conceito de mar fechado, pelo qual Portugal detinha direitos exclusivos de navegação, comércio e propriedade nos mares e nas terras descobertos, e por descobrir. A exposição projectava "a memória do lugar do pintor navegando por águas do Alqueva, caminhando por terras alentejanas, encontra na narrativa das imagens o ponto de tempo, que resulta da vivência do corpo na paisagem, entre o passado e o presente (Joana Consiglieri, 2025). Nesta exposição intitulada “Raia” na Galeria de Mourão (2026), o pintor retoma a temática abordada anteriormente, em contrapartida, o ponto de partida nasce da linha de demarcação política e geográfica entre Portugal e Espanha.
O desejo de D. Afonso V pela sucessão da coroa castelhana e as lutas subsequentes que os castelhanos fizeram à pretensão portuguesa do "mare clausum", percorre a Guerra de Sucessão de Castela (1475-1479) até ao Tratado de Alcáçovas (1479). A paz determina a a fronteira atlântica, marítima e colonial com o Tratado de Tordesilhas (1494). A raia luso-castelhana torna-se também em raia mundial, a fronteira de um rio passa a ser também uma fronteira oceânica, símbolo da divisão do mundo pelas duas potências Ibéricas.
A escolha da Galeria de Mourão, para apresentar esta exposição, revelou-se uma mais-valia por ser um ex-lagar, definido pelo seu espaço arquitectónico. Observamos um corredor com dois socalcos, aludindo a uma possível representação da fronteira, onde o público aprecia o limite histórico luso-espanhol nas diversas paisagens e marinhas. Na galeria, contemplamos pinturas de grande formato representando diversas paisagens ao longo do rio Guadiana, fronteira natural luso-espanhola. Admiramos também pinturas de médio e pequeno formato, nas suas diversas representações da raia e a sua passagem no tempo. Reflectimos sobre a dicotomia da fronteira existente, a terrestre e a oceânica. O tema encontra-se no referente pictórico, nas suas paisagens, no qual se reduz à bidimensionalidade do plano, ao jogo de linhas que contornam as imagens e às manchas de cor.
A arte de Rodrigo Vilhena e a sua pesquisa formal implica um sentimento, este que se confere à definição de uma linguagem pictórica específica. Para o artista a natureza não é mais que um pretexto para se exprimir, a pintura para além da procura obstinada da expressão do sentimento interior pela plástica, reflete o ser humano e os seus limites. Perante a inevitável passagem do tempo onde o ser humano se encontra, o limite também é o término do corpo. O limite fixa uma linha que separa e confina uma coisa ou um ser, mas também manifesta a única coisa que permite a uma qualquer forma de presença escapar à indeferenciação. O limite é profundamente ambíguo, pois restringe ao separar, inscreve um fim removendo uma existência. O limite é a convicção de haver futuro, tornando-se deste modo o fundador de outra possibilidade, ao passo que a sua ausência, ou o seu desconhecimento, impede a abertura a novas oportunidades. “É para deixar lugar à crença” (Immanuel Kant, 1724-1804)
José Ramos
Lisboa, Janeiro 2026