IMPÉRIO
MUSEU MARÍTIMO ÍLHAVO
MUSEU MARÍTIMO ÍLHAVO
Que importa a natureza em si! Para o artista não é mais que um pretexto para se exprimir.
A arte é a procura obstinada da expressão do sentimento interior, unicamente pela plástica.
Gustave Moreau (1826-1898)
Em vez de procurar representar o que tenho diante dos olhos,
sirvo-me da cor mais arbitrariamente para me exprimir de uma maneira mais forte.
Van Gogh (1853-1890)
A partir dos movimentos conceptuais e de jogos linguísticos na arte contemporânea, o artista tem cada vez mais dificuldade em manter a sua liberdade de expressão e originalidade plástica. Na arte contemporânea, evocam-se muitos códigos e signos linguísticos especializados, dos quais muitos deles já são conhecidos pela elite artística e cultural. As manifestações de mensagens especializadas no discurso estético que tiveram uma enorme exigência na sua compreensão foram descodificadas através dos artistas pioneiros da arte conceptual, arte povera, land art, ou minimalista, entre outros. Os críticos e teóricos da arte analisaram ideias, formularam discursos e criaram chaves de leitura acessíveis à elite e ao meio artístico envolvente de modo a decifrar as diferentes vanguardas artísticas.
Todavia, continuam sempre aparecer artistas da “vanguarda” ou “pioneiros” estéticos, que anseiam romper com um passado pré-definido ou códigos linguísticos conhecidos, mensagens ou ideias pré-definidas teoricamente, ou linguagens plásticas já estandardizadas no universo da arte. Através da procura constante de novos códigos estéticos, gera-se novos discursos, processos de criação, novos registos ou vocábulos pictóricos. Não é isso o papel de um criador? Ultrapassar a crítica ou teoria que abraça a História da Arte e os códigos
pré-existentes para dar lugar a novas visões do que se entende de arte?
A arte conecta o mundo que rodeia, produz processos de leitura, expressa sentimentos de acordo com uma determinada época. Viaja pelas profundezas do ser, observa os outros, articula conhecimentos, crítica o que se vê. Também, ela questiona ou abala a sociedade com manifestos, ideias, ações ou experiências incómodas, ou simplesmente intenta aprofundar o conhecimento recorrendo à História, ou à Cultura.
Na pintura, o processo advém do olhar. Como se vê e como se olha através das pinceladas, da cor, da expressão e da identidade do criador. Opera-se uma nova “equação”, onde a percepção é vislumbrada para quem observa. A metáfora pictórica dada pela mensagem produz ao observador múltiplas formas de sensibilidade estética que se revelam diferentes para quem contempla. Para o artista, a relação intrínseca de “pintura-observador” não se trata apenas em “modos de ver”, mas no sentir, no pensar, no estar presente perante uma obra, ou melhor, vivenciar e saborear o momento in situ entre a mensagem pictórica da obra de arte e o contemplador.
Neste encontro entre a obra e o observador de quem contempla, o artista Rodrigo Vilhena busca o fluxo nos vários momentos pictóricos. A noção de tempo que percorre essa “duração” da memória nasce o instante que se funde na “aura” da obra plástica. O artista, capaz em desejar eventualmente de se desvincular com o passado, recorre a ele mesmo para legitimar o acto da pincelada como um retorno à “aura” da pintura.
Para Rodrigo Vilhena, a busca pela liberdade pictórica intenta ao desejo de usufruir o livre-arbítrio em se desvincular às ideologias e éticas agrilhoadas à “moda”, ou das simetrias e assimetrias que regem o palco do “espetáculo artístico”.
As pinturas de marinhas de Rodrigo Vilhena são vistas como um fluxo de “duração”, na qual Henri Bergson (2018) a designou – la durée. O “tempo-real” ou “tempo-exterior” assume a fluidez de um tempo interior, a experiência interior de cada um. Com a noção de tempo de Bergson, permite-nos ver o tempo como uma substância, por considerar o tempo independente da relação de espaço-tempo, e apresentá-lo como psicológico, onde se manifesta em diversos
ritmos de “duração”.
Em Império, na exposição de Rodrigo Vilhena, contemplamos o ritmo da fluidez de duração, estabelecido por grupos de pinturas de marinhas, que nos remetem a uma embarcação marítima diferente. Porém, o pintor cria um paradoxo na concepção temporal entre a duração, o tempo psicológico, e o instante, o tempo histórico. Funde ambos através da história colectiva de um povo. A miragem espelhada em vários ângulos e momentos temporais vistos por cada embarcação marítima alude-nos, deste modo, à História, no instante.
O tempo que não era linear passa a sê-lo, quando o artista invoca a momentos históricos vividos por cada embarcação através de São Gabriel (1497), Cinco Chagas (1594), São Francisco Xavier (1625), Amável Donzela (1788), Camões (1875), Pedro Nunes (1917) e Império (1970). Cada um apela a uma história, uma vivência, uma experiência, um período, a múltiplos passados que delineiam a memória de um povo, que aprecia a ser louvada.
Joana Consiglieri
Novembro 2025